Para o jornalista esportivo Juca Kfouri, é absurdo que eventos e comitês esportivos sejam patrocinados por empresas como a de bebidas alcoólicas. “Não há nada mais antiesporte e antisaúde”, diz. Além do COB, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) também recebe patrocínio de uma marca de cerveja (Brahma). Por meio das propagandas que a associam ao esporte mais popular do país, este é facilmente associado ao consumo da bebida.
Juca Kfouri, que é associado do Idec, lembra ainda que há muita “sujeira” envolvendo a indústria esportiva. O jornalista aponta, por exemplo, o tráfico de influências na escolha das cidadessede para as Olimpíadas e cita que, na ocasião do centenário do evento (1996), era previsto que Atenas fosse escolhida como sede, por sua relação histórica com os jogos. Mas a eleita foi Atlanta, nos Estados Unidos, cidade berço da Coca-Cola. O fato de a empresa ser patrocinadora do evento terá sido mera coincidência?
O Idec encaminhou carta ao COB, pedindo que o órgão trabalhe junto com o COI para estabelecer mecanismos que resultem no fim da exploração de trabalhadores nas cadeias de produção de artigos esportivos, e que utilize sua influência sobre as companhias em operação no país, assim como sobre patrocinadores de times nacionais, a fim de pressionar por esses mesmos objetivos.
| Questões antigas
A indústria de roupas esportivas movimenta cerca de US$ 74 bilhões por ano, em todo o mundo. O setor é formado por gigantes corporativos como Nike, Adidas, Reebok, Puma, Fila, Asics, Mizuno, Lotto, Kappa e Umbro. Embora divulguem códigos de conduta e relatórios de responsabilidade social, muitas dessas empresas já são, há vários anos, alvos de denúncias por desrespeito aos direitos humanos. Na década de 1990, a Nike sofreu grande pressão internacional depois que organizações de luta pelos direitos humanos denunciaram que a multinacional usava mão-deobra infantil na produção de bolas de futebol no Paquistão. Após grande repercussão internacional, em 1997, a companhia divulgou na imprensa a adoção de um “código de conduta” em que se comprometia a respeitar os direitos trabalhistas na cadeia de produção de seus artigos. No entanto, o discurso não condizia com a realidade, tanto que, no ano seguinte, um sindicalista norte-americano processou a empresa por propaganda enganosa, depois que a companhia divulgou seu relatório de responsabilidade social anual. Para Felipe Saboya, do Observatório Social, o “caso Kasky”, como ficou conhecido, foi emblemático, pois apesar de o processo não ter resultado em condenação, fez com que a empresa não publicasse nenhum relatório social ou qualquer material sobre RSE (responsabilidade social empresarial) durante todo o tempo em que durou o processo. |